domingo, 17 de setembro de 2017

Na contra capa | "Não gosto de ler"


“If you don’t like to read, you haven’t found the right book.”  ― J.K. Rowling
Não havia como saltar páginas ou encurtar a história, eu já a sabia de cor (e não deixava que poupassem nos detalhes).Era impossível aconchegar-me se não tivesse uma caneca com leite achocolatado na mão e um livro pronto a ser lido na mesa de cabeceira. "Outra vez?". Sim, outra vez. Queria que me relessem a história do dia anterior, ou da semana passada, apesar de haverem tantas outras para contar. "Mas é tarde.". Tarde? Nunca é tarde para ler.

Depressa, os meus pais perceberam que tinham criado um monstro. 

Nunca andei de avião mas sinto-me uma pessoa mais do que viajada. Já atravessei um guarda-roupa, andei de comboio até Hogwarts, passeei pela Amazónia, Nova York, Wonderland, Itália e afins, escalei os Himalaias, saboreando as nuvens e o céu, perdi-me no centro da terra  e nos seus segredos infinitos...
Senti mais do que o que a minha vida me permitiu e fiz muito para quem ainda viveu tão pouco. 

Por já ter sido tão feliz em aventuras que não eram minhas, ter sentido tanto e desejado ainda mais, percebo que não gostem de romances, de thrillers ou policiais, mas não gostar de ler transcende-me

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

(Des)Aventuras | Último ano de secundário



Terão aqueles corredores algum dia sido meus? Talvez não tenha passado de mais um fantasma que se arrastou por eles, com as correntes pesadas de quem é obrigado a andar mesmo sem já sentir o chão.
Talvez...
Um dia, sabe-se lá porquê, posso perder este meu tato, este meu jeito de olhar para a minha vida com olhos de espetador. Será deveras uma perda triste. Gosto de ser assim, crítica de  mim mesma, apesar de ter de admitir: acabo sempre por me exceder. Nesse dia esquecer-me-ei também que não existem fantasmas, que todos nos tocamos uns aos outros das maneiras mais belas e peculiares. Por isso sei e grito com toda a certeza, que não tenho sido um fantasma e não hei-de me tornar um.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sleep, dream, write and repeat | O "pessoal" e o "demasiado pessoal para publicar"

Photo by Nick Morrison on Unsplash

A escrita - narrativa ou não - é diretamente influenciada pela personalidade do autor, experiências e realidade que o definem. Largamos um pouco de nós em cada review, texto de opinião e deambulação que escrevemos, revendo nos personagens mais bizarros um bocadinho de nós mesmos ou da nossa verdade. 
Na blogosfera, somos inundados de novas ideias, identidades e convicções, de conteúdo que nos move e nos faz pensar acerca da nossa própria visão. Por muito que esse conteúdo espelhe o seu autor, blogs, anónimos ou não, não são diários.

domingo, 10 de setembro de 2017

Sleep, dream, write and repeat | 5 coisas que aprendi com o meu primeiro blog

Ilustração por Aaron Jay

Quem leu o meu primeiro post sabe que o Coffee Cup não foi o meu primeiro projeto na blogosfera. O The World Through My Eyes nasceu há uns quantos anos atrás, com um papel bem definido de amigo, quando mais precisava de um. Essa foi a principal razão por detrás da minha necessidade de o deixar ir, o facto de precisar que ele evoluísse para algo maior e não sentir que isso acontecesse. Eu cresci mas, por mais alterações de design e projetos, não o conseguia fazer crescer comigo. Com os seus tons de roxo e titulo extenso, ficou preso a um período da minha vida que já passou e a uma escritora que nada tem a ver com a que estão a ler hoje. 
Foi bom enquanto durou e o meu primeiro blog ajudou-me, sem dúvida, em muitos aspetos, contribuindo para perceber umas quantas coisas acerca da minha relação com a blogosfera.
É sobre isso que vos escrevo hoje, sobre  cinco coisas que o meu antigo blog me ensinou.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

(Des)Aventuras | Como as crianças vêm os "mais crescidos"

Fotografia por Scott Webb, no Pexels

Ocupei o lugar de prima mais nova durante muitos anos. Somos uma família numerosa e o meu papel de bijuzinho, única menina num mar de testosterona, enchia-me as medidas . A certa altura, como quem não quer a coisa, passos pequeninos infestaram os eventos familiares e o papel de prima mais velha (para um grupo de três pestinhas) começou a instalar-se no meu coração.
Sempre tive paciência para eles, para correr, para brincar, descalçar as botas de salto alto e andar descalça no parque infantil... Encho-os de mimos, tal como eles me fazem a mim e detesto passar muito tempo afastada.
Este meu papel tem os seus senãos: conversas sobre temas para além das Winks e da Patrulha Pata tornam-se complicadas, comer quando eles já acabaram sem gritos e puxões impossível e há aqueles dias em que tenho de fazer cara feia e dizer não à brincadeira que vai, decerto, acabar em lamuria.
Estava a comer e eles, como sempre, impacientes para que acabasse. Nos meus melhores dias não conseguiria imaginar o que veio a seguir.

"Temos de aproveitar enquanto ainda brincas connosco. Estás a ficar crescida e vais deixar de querer saber de nós."
Escusado será dizer que ouvir isto me partiu o coração.
Já mais velha, a minha prima ouve-me a falar da faculdade, de planos para viajar e de coisas que, por mais que se esforce, ainda não consegue compreender. Ainda bem que não, deixem-nos guardar a inocência deles enquanto o devem fazer. Para além do mais, têm à sua volta os 'inimigos', os mais crescidos, os adultos, que não lhes dão tanta atenção nas festas e almoços. Estaria eu, aos olhos deles, a tornar-me numa dessas criaturas?
Todos temos uma criança dentro nós. Genuína, brincalhona e despreocupada, enterrada no meio das preocupações do dia-a-dia. É compreensível. O mundo dos adultos tem pouco espaço para deixar essa alegria vencer, mas eles não vêm isso dessa maneira.
Eu estou a crescer, é a realidade. Para bem ou para mal, não consigo parar do fazer.
Ajoelhei-me perante eles, de forma a que não vissem mais uma "grande" mas sim um igual e tentei explicar que sim, estou a crescer, que vou ficar tão "grande" como toda a gente mas que, de maneira nenhuma, iria deixar de querer saber deles. Vou continuar a brincar, vou continuar a sorrir e a tentar que eles tragam a minha infantilidade à superfície.
Eles fazem com que me lembre das pequenas coisas, que tanto os fascinam mas que, para mim, já são tão normais. Às vezes torna-se chato brincar uma e outra vez às escondidas. No entanto, nada me deixa mais feliz que ver um sorriso nas caras deles.
Acompanhar os crescimento dos meus primos (e fazer parte dele), tal como o resto da minha família acompanha o meu, é recompensador. Ouvir a minha prima dizer que quer que lhe mostre os filmes da Marvel deixa-me em pulgas, mostrar-lhe Oasis e receber um feedback positivos faz-me delirar, ouvi-los dizer que acham piada ao aparelho, que a minha t-shirt dos Iron Maiden é esquisita e que querem que eu lhes conte tal história outra vez, faz com que esboce o maior dos sorrisos.
Ao ouvir o que ouvi, apercebi-me o impacto que tenho na vida dos pigmeus que tanto adoro. Fiquei nostálgica. Também eles estão a crescer sem sequer se aperceberem. Comecei  mais valor à visão que eles têm no mundo, tão crua e mutável como a que outrora eu mesma tive.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

(Des)Aventuras | 5 locais em Lisboa que quero visitar




Desde pequena que me sinto hipnotizada pelos encantos lisboetas, pelas ruas e ruelas da cidade, pelas lojas e cafés com conceitos originais que lá habitam e por todo o movimento que a cidade alberga. 
Para além de Lisboa, existe Sintra, que visito de vez em quando com grande entusiasmo. Sempre gostei do nevoeiro, da cor verde e do misticismo que a região comanda. 
E a Ericeira?  Perder-me no mar bravo sobre o céu cinzento invernal, já com uma camisola grossa e desejos de chá quente.

Portugal tem, sem dúvida, sítios maravilhosos. O que não falta é praia, florestas sem fim e cidades onde dá gosto passear. Deixaremos essas histórias para depois, hoje falo-vos da nossa capital e de cinco locais que nela quero visitar.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Mumbling | Pensar demais


Fotografia pot Pana Vasquez no Unsplash

O nosso coração acelera, sentimos o chão a desabar e respirar torna-se complicado. Ouvimos os segundos a passar, o vento a sussurrar à nossa volta, temos fome, sede e vontade de partir sem ideia de quando voltar, por isso paramos. Respiramos. Ficamos calados. Imóveis. 
Quando seguimos o nosso caminho, estamos chateados e abatidos com o que ficou por dizer. Promessas vazias de um amanhã diferente tomam lugar mas parte de nós sabe, parte de nós reconhece a impossibilidade de fugir ao medo que nos consome, ao medo daquilo que não conseguimos controlar
Debaixo das estrelas, apoiados numa almofada de sonhos, idealizamos o rumo que a conversa haveria de levar. Devia ser assim, simples. Eu contava o que se passou, ele dizia que concordava e tudo acabava bem mas na escuridão, nos confins da minha cidade encantada, reconheço a verdade: eu nunca vou conseguir contar.
Não seria mais fácil? Não seria eu mais feliz? Deveras menos arrependida. As palavras podiam cair, as ações podiam pesar menos, mas não. Os meus movimentos são lentos e as ideias repensadas. Eu podia ter dito "Olá" mas e se fosse inconveniente? Eu podia ter tentado ajudar. No entanto, existem pessoas que podem fazer mais e melhor. Por isso não faço, não digo, não grito e mais tarde sinto-me culpada.
O mundo seria mais fácil (até mais amarelo), se não pensássemos demais. Preferimos deixar a luz apagar, aquela luz que assinala o momento de agir, de deixar que a bravura tome conta de nós. Afinal, o que é que receamos? Falhar? Fazer figura de estúpidos? Todos somos estúpidos, pelo menos uma vez. 
Tenho tendência a pensar demais, decerto não serei a única. Porque é que fazemos isto? Porque é que complicamos e nos martirizamos? É como ter um relógio dentro da cabeça, um daqueles irritantes cujo ponteiro dos segundos teima em falar. É uma voz, constante e aguda que nos diz que iremos cair, por isso mais vale  não andar. É um desafio. 
Muita gente tenta ficar calada, eu tento falar. A voz não sai. Muita gente é impulsiva, eu tento sê-lo. Não consigo.
Um dia vou construir um comboio de palavras, de gestos e de ideias por concretizar. Sentar-me a ler um livro e a beber chá de menta, deixando-me levar pelo sabor amargo desses insucessos. Eles vão relembrar-me do que escrevi hoje, da frustração e desilusão que ficar parada novamente acarreta e lembrar-me-ei que preciso de viver mais um bocadinho.